O NAUFRÁGIO DO BATAVIA

O Batavia partiu de Amesterdã, Holanda, a 27 de Outubro de 1628 rumo à cidade que lhe deu o nome e que é hoje Jaçanã, em Java. O navio tinha sido reconstruído pela Companhia Holandesa das índias Orientais.
O Batavia levava uma preciosa carga: 250 000 florins de prata e uma valiosa coleção de jóias e pratos de prata, assim como mercadorias para comércio, tais como roupa, chumbo e cochonilha. Transportava também algo invulgar:
Blocos de grés para um pórtico . A bordo seguiam 316 pessoas, entre as quais se incluía um destacamento de soldados, mulheres e crianças. Entre as mulheres seguia Lucrecia van der Mylen, que ia juntar-se ao marido no Oriente. Durante a viagem ela atraiu mais atenções que o normal. Havia quem dissesse que ela tinha um caso com o capitão do navio,Pelsaert, e que o piloto Jacobsz desejaria ser ele o alvo do afeto dela.
Não há qualquer prova concreta que o possa garantir, embora se notasse grande má-vontade entre os dois homens.Depois de ter feito escala no cabo da Boa Esperança, África do Sul, para se abastecer de mantimentos frescos, o

 

Réplica do Batavia

Batavia largou tendo tomando rumo para o sul a fim de aproveitar os ventos de ocidente.
Um dos perigos dessa rota era o risco de haver um erro de cálculo quanto ao tamanho do percurso Para este antes de voltar para norte.

urante a noite de 4 de junho de 1629, o Batavia bateu no recife Morning, parte da ilha este Wallabi do arquipélago Hountman abrolhos, cerca de 65 km (40 milhas) ap largo da costa oeste da Austrália. O Batavia ficou encalhado no recife e a maior patre dos passageiros conseguiu chegar às ilhas pequenas e áridas usando as embarcações.A maior preocupação dos que conseguiram chegar a terra era a falta de água potável. Alguns barris que iam do navio tinham dado à costa, mas a primeira vista parecia que nas ilhas não havia qualquer nascente.
Cerca de 80 pessoas ficaram a bordo, como era costume entre os marinheiros da época, quando os navios ficavam nessas situações. Entretiveram-se a arrombar e saquear um dos baús cheios de prata.  Nesta penosa situação, Pelsaert, Jacobsz e 45 outros apoderaram-se dos dois barcos que restavam e fizeram-se ao largo. Esta súbita aliança entre Pelsaert e Jacobsz, que tinham sido inimigos durante um ano, sugere que, devido a este novo problema, os dois homens terão concluído que a única hipótese de sobrevivência era fazerem trégua.

 

Pórtico de grés recuperado na década se 1970

Logo nos primeiros dias, alguns que tinham ficado na ilha morreram de sede.No entanto, os que prosseguiram as buscas acabaram por encontrar abastecimento de água potável e, por sorte, também muita comida, constituída por carne de foca, ovos de pássaros e peixe.

O Reino do Terror de Cornelisz

Um dos que permaneceu no Batavia era Cornelisz, um boticário de Amesterdã, que era o mercador encarregado dos aspectos comerciais da viagem, ou seja, o superintendente da carga. O seu procedimento fez dele o verdadeiro espírito do diabo deste desastre. Já durante a última parte da viagem, Cornelisz e Jacobsz, contra a vontade de um pequeno grupo de marinheiros, tinham planejado apoderar-se do navio, afogar todos os não-conspiradores e depois fugir com o navio e o seu tesouro; mas o navio teve o acidente antes de conseguirem realizar os seus planos.

Passaram dez dias antes de Cornelisz abandonar os destroços do Batavia. Ele foi o último a abandoná-lo, mas, quando chegou a terra, assumiu o comando sobre todos como o membro mais antigo da VOC. Distribuiu as pessoas pelas várias ilhotas, com a intenção de impedir a acumulação de pessoas, mas também porque isto o ajudava a concretizar o seu plano de tomar o poder e apoderar-se do tesouro do Batavia.

 

Réplica do Batavia

A maior parte da prata ainda se encontrava a bordo do navio, mas as jóias tinham sido retiradas e estavam na sua posse.
O comportamento subseqüente de Comelisz, porém, não dá a idéia de que o seu plano fosse coerente mas mais de fantasias desordenadas de um psicopata com considerável carisma.

Durante as semanas que se seguiram, 125 sobreviventes, incluindo mulheres e crianças, foram mortos por Cornelisz e pêlos seus asseclas, numa sistemática orgia de terror.

Ele vestia-se com vestes escarlates tiradas do navio e assumindo o controlo violento e autocrático, tendo mesmo forçado a infeliz Lucrecia a ser sua amante. Havia uma frente de oposição a Cornelisz dirigida por um homem chamado Hayes e de que faziam parte 40 soldados, que se recusaram a obedecer às suas ordens. O grupo de Hayes pegou em armas e por duas vezes conseguiu reprimir ataques dos homens de confiança de Comelisz. Depois, Hayes fez um ataque de surpresa, matou os chefes do grupo de Cornelisz e aprisionando-o.

 

Jarras de prata recuperadas do Batavia

Resgate dos Sobreviventes por Pelsaert

A 2 de Julho de 1629, Pelsaert, Jacobsz e os seus dois barcos foram resgatados pelo navio Sardam e levados para Jacarta. Pelsaert foi recebido pelo governador-geral e foi mandado ir resgatar os sobreviventes, enquanto Jacobsz era preso.
Pelsaert teve dificuldade em encontrar a ilha onde o Batavia tinha ficado, mas a 16 de Setembro o navio foi localizado. Hayes informou Pelsaert do que tinha acontecido na sua ausência. Os amotinados foram aprisionados e foram severamente punidos! Sete foram enforcados, inclusive o próprio Cornelisz!
Segundo a Lei holandesa da época, ninguém podia ser enforcado sem antes ter confessado o seu crime e não ter desmentido no prazo de 24 horas. Mas, para obter a confissão, era lícito a aplicação de tortura, inclusive a tortura da água!
Foram necessários 15 dias para obter a confissão!
Pelsaert nunca se recuperou do trauma vindo a falecer no ano seguinte.    

Mergulhadores foram enviados de Jacarta (Batavia) recuperaram 10 baús de prata do Batavia pouco depois dos acontecimentos de 1629.
Depois disso, os destroços ficaram inviolados até 1963, quando foi localizado, tendo-se recuperado vários canhões e moedas. O Governo Holandês transferiu os direitos do naufrágio para o Governo da Austrália e, em 1972, o Museu do Oeste Australiano iniciou intensivas operações arqueológicas, tendo recuperado uma enorme quantidade de preciosidades, objetos pessoais e acessórios e abastecimentos do navio, que hoje se encontra em exposição.