Birmânia, Tailândia e Saigon

Desde os primórdios, por causa da densa floresta, as únicas vias de comunicação em grandes extensões, na Birmânia e na Tailândia, foram os rios Irawadi, Salwen e Mekong. Por isso a embarcação local, das rudimentares canoas iniciais, escavadas em troncos, passou a grandes navios, pitorescos, perfeitos no seu gênero, que conservam todavia as estruturas fundamentais dos protótipos de que descendem. Nas barcas de arroz do lrawadi, a parte inferior do casco, construída com madeira rescaldada a vapor para torná-la flexível e estendê-la até a largura desejada, conserva a forma da canoa escavada.

Pitoresca barca para transporte de arroz do Irawadi.

 As altas amuradas, a popa elevada e ornada com esculturas, o robusto timão colocado no flanco esquerdo, as velas enormes e vistosamente abauladas, a longa cabina com teto de palha e os passadiços laterais fora de bordo, que servem para manobrar com a pertiga, quando necessário, são todas coisas acrescenta­das com o passar dos séculos. Nas esculturas florais da popa são colocadas flores verdadeiras e trepadeiras da floresta.

O pequeno rua chalom é uma barca de carga “faz­tudo”, encontradiça nas águas tailandesas.Com um só mastro, vela de quarto, cabina com teto de bambu, proa e popa prolongadas, esta embarcação tem dois remos de governo, de pá estreita, que lembram um antigo barco mercante do Mediterrâneo.

 

O twako tailandês, de fundo chato, é em tudo e por tudo um junco chinês: velas de quarto com varetas, traquete inclinado para a proa, casco pintado com cores vivas e com a figura do olho na proa. Todavia, à diferença do junco, o twako tem um timão fixado na popa, no modo costumeiro, em vez de passar, como no junco, pela abertura circular na pequena ponte da popa.

 

 Oghe ca vom  embarcação fluvial longa e estreita de Saigon, tem uma aparência egípcia, acentuada pelas peças curtas de madeira com que é construído o casco. O único mastro, situado muito à proa, tem uma vela insólita,
meio-termo entre a vela de terço oriental e a vela de corte ocidental. Uma pequena cabina de bambu, na coberta, serve de alojamento à tripulação.   O timão do ghe ca vom, montado na popa é encurvado sob o casco, permitindo maior possibilidade de manobra.

Ocidente e Oriente misturam-se no ghe Iuoirung. Esta pitoresca embarcação, pintada com cores vivas, tem um casco em forma de colher, de pouca imersão, de madeiramento liso, com um grande olho pintado em ambos os lados do costado.

Lembra os modelos funerários de navios, encontrados nas tumbas egípcias. Mas os três mastros, retos, têm as sartas retesadas, à maneira européia, por meio de bigotas, e o mastro principal é sustentado por um poderoso estralho. A proa tem uma minúscula figura orna­mental. Surpreendente é sobretudo o velame que corresponde a um equipamento (denominado “à portuguesa”) que esteve em voga nas lanchas a vela das Marinhas de Guerra européias, por causa de sua elegância e facilidade de manobra. O timão é semelhante ao do ghe ca vom. Quanto ao símbolo do olho, representava para os egípcios a proteção do deus Horus e para os marinheiros cretenses a proteção da deusa Rea. Adotaram-no os fenícios, os gregos, os romanos e assim por diante até os portugueses, em cujas embarcações o encontramos ainda.

 Esta expressão de fé em uma divindade benévola e vigilante, sempre alerta contra os perigos, propagou-se pela África e pela Ásia. As embarcações de Zanzibar têm a figura do olho na proa e na popa e os chineses têm nada menos do que três tipos distintos: o olho do dragão, o olho girino e o olho da fênix. Esta crença tão difusa gera também complicações. Se a tripulação é hindu ou budista, sua nave certamente terá o olho; o islamismo, pelo contrário, o proíbe.