Embarcações do Mediterrâneo II

O vinco, um tipo de embarcação genovesa, era entre os veleiros mediterrâneos tradicionais um dos mais interessantes.
 A popa saliente e a linha do casco lembravam o scebek argelino; o equipamento e o velame entretanto, revelavam uma nítida confluência de conceitos nórdicos e mediterrâneos O traquete sustentava três velas latinas com as respectivas antenas, além de floco, contrafloco e traquetína ligados pelas bordas a um longo gurupês munido de cabos de amarra, à maneira dos navios nórdicos. Os mastros de vela mestra e de mezena, ao contrário, tinham as tradicionais velas latinas do Mediterrâneo. A menzena era ligada a uma vara que se projetava para fora da popa, como ainda se vê, na Inglaterra, nos últimos pesqueiros de águas costeiras, remanescentes no Suffolk.

 O vinco de genova é um exemplo clássico da mistura das técnicas mediterrânea e nórdica.

A sperona, barco maltês de um só mastro e vela latina, tem na proa uma saliência que lembra o esporão
(ou rastro) das galés gregas. Da mesma forma o alto parapeito em volta da coberta provavelmente derivou dos quebra-ondas feitos de esteiras de vime que serviam para proteger a carga dos antigos navios mercantes gregos. De outra derivação européia são o timão, embutido no centro da popa, o longo gurupês e a grande vela triangular de proa.

Um  interessante tipo de embarcação a sperona de malta. 

A embarcação grega chamada scafo tinha uma estranha característica: seu aspecto geral era de tipo
europeu setentrional e sua construção era quase igual à dos pesqueiros da costa setentrional americana, com madeiramento de tábuas de bordas sobrepostas. Sua grande vela presa a uma driça era estendida por uma haste disposta diagonalmente, semelhante à da vela trapezóide. Nesta embarcação de aspecto não muito bonito, o único elemento próprio da tradição mediterrânea era a faixa de lona presa a uma balaustrada.

Scafo grego

Ainda mais surpreendente é a quantidade de inovações nórdicas e meridionais verificadas no saccoleva grego (semelhante ao que se utilizava na Sicília para a pesca de esponjas). Trata-se de uma daquelas embarcações tradicionais de cuja história pouco se sabe. Ao mastro principal, inclinado para a proa como nos navios mercantes mediterrâneos dos sécs. IX e X, era presa uma vela de corte, estendida (como no caso precedente) por uma haste diagonal. Havia também, mais ao alto, uma antena com uma vela quadrada. O mastro de mezena, inclinado para a popa, sustentava uma vela triangular ligada a uma vara. À primeira vista podia parecer uma goleta (pequena escuna), mas observando melhor, reconhecia-se o casco da tradicional “nave redonda” mediterrânea, modificado para aumentar a tonelagem de carga. Além disso, ao contrário do sacoleva, a goleta tem na proa um mastro de traquete, mais baixo do que o mastro principal (este último aparelhado com velas trapezoidais.

Sacolevo grego.

A embarcação turca chamada tcektirm  tinha o madeiramento liso, segundo o costume mediterrâneo; mas o velame com contrafloco, floco e vela de corte lembrava o equipamento de certos pesqueiros do séc. XIX, que operavam no Mar do Norte.

Infelizmente parece ter-se perdido irremediavelmente, na Turquia, a lembrança do navio menor, mas característico, da tradição marítima local. Tratava-se porém, segundo todas as aparências, de embarcação utilizada para usos mistos.

Tcektirm, embarcação turca com dois flocos, traquetina e vela trapezoidal.

A mahovna, uma chata a vela turca, tinha um tronco de mastro que sustentava, por meio de uma troça, a longa antena de contrapeso à qual estava presa a vela latina. A forma saliente da proa relembra o Egito, pois era quase idêntica à de uma barca chata de dois mastros do rio NiIo. Mas a traquetina e o floco ligado a uma longa haste conferem um aspecto nitidamente europeu à dianteira da mahovna.

Desta espécie de troca recíproca e de enxerto de formas, procedentes de experiências marítimas diversas, a tradição italiana extraiu vários tipos, dos quais ainda subsistem alguns exemplares. A balandra, conhecido pesqueiro de proa saliente e de velas coloridas, pode talvez remontar à rascona.

O pequeno barco, com mastro de traquete muito à proa e inclinado para a frente, que sustenta uma vela trapezoidal estendia na cabeça do mastro de mestra, à maneira da vela latina, é provávelmente único no seu gênero. Com traquete de velas quadradas e com flocos estendidos no longo gurupês, tinha entretanto velas latinas no mastro de mestra e no de mezena.

Chata turca a vela mahovna