Embarcações do Mediterrâneo

Entre os sécs. III e VIII perdem-se as pistas da construção naval no Mediterrâneo; porém depois, entre os sécs. IX e X, eis que aparece um tipo de navio que constitui uma revolução. Casco bastante semelhante ao dos navios mercantes cretenses e gregos, com madeiramento liso e proa que se projeta para diante, curvando-se para dentro na extremidade. Tem, porém, dois remos de governo, um mastro bem sustentado por cabos situado na seção anterior do navio e inclinado no sentido da proa.

Durante o seçulo XI os construtores do mediterrâneo adotaram a vela latina ("alla trina")

A ponta do mastro, com a estranha forma de gancho, sustentava uma vela de tipo novo, a vela latina, talvez de origem árabe Era uma vela em forma de triângulo-retângulo (talvez o nome derive precisamente da expressão “alIa trina”), presa a uma longa haste e manobrada por meio de um sistema de polés e cadernais que permitia à nave aproveitar o vento. Pela primeira vez aparecia no Mediterrâneo uma nave que não tinha necessidade de remos. Todavia, a galé de mais ordens de remos, com suas velas auxiliares, permaneceu como navio de guerra; mas começou a mudar. No incido do séc. XII o complicado trirreme, com suas três ordens de remos e o seu esporão, cedeu lugar ao temível “dromo” (do grego dromos, “que corre”).

Dromo Grego do século XI com revestimento compondo uma "couraça".

O “dromo”, com velas latinas, tinha até três mastros e duas ordens de remos com 150 a 200 remadores; além disso dispunha de um armamento imponente e pesado, a balestra (ou besta), de funcionamento mecânico, que lançava flechas, e a catapulta que arremessava bolas de pedra. Da proa se projetava o tubo para lançar, por meio de um fole, o fogo grego. O armeiro chamava-se hatafaltafetes. Durante as Cruzadas os sarracenos empregaram especialmente este tipo de navio de guerra.

O temível scebek dos piratas argelinos provocou o terror nos mares durante o século XVII.. 

Podem considerar-se remotos descendentes do “dromo” o xaveco (do espanhol jabeque) e o scebek dos corsários argelinos do séc. XVII, que, com sua popa decorada a ouro e colorida e com sua ponte guarnecida de estrado, assemelhava-se a um iate, mas era também muito temido por seus canhões, pela ferocidade de sua tripulação e por sua eficiência em combate. Por volta de 1750 aparece uma versão transformada, o scebek-polaca. Observe-se que, não obstante o progresso no campo do navio a vela, as galés, com seus remos, foram utilizadas na guerra ainda depois de 1700. Entende-se que tardassem tanto a desaparecer, pois os remos eram, para os navios de guerra, um expediente necessário em caso de calmaria.

Scebek-Polaca apareceu por volta de 1750, cominando de forma bem eficiente a vela redonda com a vela latina.

Foram os franceses os criadores do último tipo de galé chama­da “real”, armada de artilharia ligeira na proa. Como nos navios de guerra de época posterior, o capitão e os oficiais tinham luxuosos alojamentos na popa, enquanto a tripulação se acomodava como podia entre as pontes. O poço das correntes de âncora e o depósito geral, na proa, serviam de hospital em caso de guerra. Típico da real era um amplo local no centro da nave, chamado “taverna”, que servia ao mesmo tempo de depósito de velas e de adega. A tripulação destas galés tinha absoluta necessidade de vinho porque a bordo levavam uma existência infelicíssima. As amuradas destes navios, velozes mas pouco apropriados para o mar, eram tão baixas que os remadores, muitas vezes, ficavam dentro da água até a cintura. A última galé deste tipo foi construída em 1720. A leveza do casco, que lhe proporcionava velocidade, a tornava vulnerável aos canhões. Em 1684, por exemplo, os canhões do navio de guerra francês Le Bon tinham destruído uma frota inteira de trinta e cinco galés.

A galé de guerra real francesa foi construída por volta de 1720. Nesta época já se encontrava inteiramente ultrapassada.

Há trinta ou quarenta anos, o Mediterrâneo e o Egeu eram enfeitados com uma série de veleiros de equipamento estranho e vivamente decorados, que tinham nomes outro tanto pitorescos. Infelizmente desapareceram quase sem deixar vestígios, com o advento do motor e em conseqüência de acontecimentos políticos. Resta apenas a observação de que tanto o velame como a construção amalgamavam aspectos mediterrâneos e nórdicos.

Entre estas embarcações desaparecidas, uma das mais graciosas era a rascona veneziana. Provida de dois mastros, com um só remo de governo no flanco direito do casco, de formas arrojadas, com velas nas extremidades, alegremente coloridas, e com uma grande superestrutura para alojamento, na popa, a rascona era um meio-termo entre a típica “nave redonda” mediterrânea e a nave longa” nórdica, com influência maior, talvez, da última.

Barco de velas bem enfeitadas, a rascona veneziana era inconfundível.