A antiga Creta

Os documentos até hoje disponíveis atestam que os primeiros a construir navios destinados a sulcar os mares foram os habitantes de Creta da era neolítica, pois sabemos que já no ano 3000 a.C. exportavam para o Egito a obsidiana, pedra vulcânica apropriada para fazer.armas e utensílios de corte aguçado. Importavam, por sua vez, materiais das Liparas.

Com a descoberta do cobre e do estanho e com o advento da idade do bronze, a construção naval no Mediterrâneo e no Próximo Oriente teve um incremento enorme, pois a procura desses metais e de artesões capazes de trabalhá-los levou, como conseqüência direta, à procura de navios espaçosos e seguros para transportá-los (sem contar a ativa exportação cretense de vasos, objetos de metal, esponjas, vinho, azeite de oliveira e peixe seco). Os antigos cretenses construíram, por conseguinte, grandes frotas mercantes que, com suas preciosas cargas, chegavam a todos os portos do Mediterrâneo, à Sicília, a Tróia e ao Egito.  

Reprodução em marfim de uma barca encontrada em Cnosso. 

Os navios cretenses, com marinheiros cretenses, dominaram o tráfego do Mediterrâneo, do Adriático, do Próximo Oriente.

Em 1908, um arqueólogo americano, o Prof. Seager, no decurso das escavações na pequena e deserta ilha de Mochlos, ao lar­go de Creta, encontrou um tesouro, esplêndido e singular, datando de 4500 a.C. Entre os objetos preciosos havia um anel de ouro maciço gravado, que representa a partida de um navio do santuário de Rea, deusa-mãe dos cretenses, protetora dos marinheiros.

As embarcações mercantes cretenses navegaram os quatro cantos do mundo de sua época.

Nas escavações do palácio de Cnosso, em Creta, Sir Arthur Evans encontrou, no fim do séc. XIX, o modelo em marfim de um barco a vela com estiva e tampa de escotilha. Descobriu também raríssimos sinetes com motivos marítimos, um dos quais, datando de 1500 a 1700 a.C., encontrado entre as ruínas da vila real, perto de Cnosso, representa um barco de um mastro, que trans­porta um cavalo. Segundo Sir Arthur Evans, reproduzia a chegada de um dos primeiros puros-sangues importados para Creta. Provavelmente os cretenses da época navegavam com navios co­mo esse representado neste sinete, para fundar sua colônia na costa da Palestina, cerca do ano 1200 a.C.

Reprodução de uma nave cretense em um anel de ouro encontrado em Mochlos.

FENÍCIOS

Em outro sinete de esteatito, que remonta ao primeiro período minóico (2800-2200 a.C.), vê-se um navio com duas velas e dois crescentes de lua sobre o mastro (talvez para indicar que a viagem havia durado dois meses). Navios de um, dois e até de três mastros aparecem em outros sinetes. Um destes, descoberto em Mirabel, tem gravado um navio com um só mastro, de vela quadrada, e com um tipo de equipamento que aparece nos clipers americanos do séc. XIX. Os cabos eram de intestinos entrelaçados. Outros modelos de navios, em terracota ou em alabastro, f oram descobertos pelos arqueólogos italianos que conduziram es cavações na parte meridional da ilha.

Nave mercante fenícia onde pode-se notar a influência da cultura cretense.

Depois de ter deixado por volta do ano 200 a.C. o berço de sua raça, na costa setentrional do golfo Pérsico, os fenícios (ou sidôneos, como eram chamados) se estabeleceram na costa oriental do Mediterrâneo, em Tiro e Sidon. Daí velejaram para Cádiz, Cartago o e Marselha e depois para a Córsega e para a Sardenha, criando colônias e fazendo concorrência aos cretenses.

Os fenícios construíram barcos sólidos e grandes, de um só mastro, que alcançavam um deslocamento de até 300 toneladas. Neles se encontravam várias características dos navios egípcios e cretenses. Navegavam a vela só com vento favorável, utilizando escravos para o remo. O prolongamento da proa terminava com uma cabeça de cavalo esculpida, enquanto a parte saliente da popa, curvada para dentro, tinha a forma de rabo de peixe. Imperava a pirataria e por isso os mercadores fenícios eram bem arma­dos. A nave de guerra dos fenícios era a birreme uma galera com duas ordens de remos,  com uma vela quadrada no único mastro. Veloz, fácil de manobrar, de pouca imersão, mas também pouco apropriada para o mar, tinha como principal característica uma ponte de combate e, além disso, um rosto maciço, em forma de corno.  

Galera fenícia com uma estreita plataforma de combate.

Os fenícios são considerados precursores, pois abriram novos caminhos à navegação, lançando-se para o norte até a Cornualha à procura de estanho. Mas não eram inclinados a desafiar os oceanos, como fizeram depois os normandos, e preferiam costear a terra. Talvez à força de contar estórias espantosas, para intimidar os outros marinheiros e conservar o segredo das rotas comerciais, acabaram por acreditar nelas eles próprios.