VIDA A BORDO NO SÉCULO XIV - O JANTAR

 

Depois de uma manhã de trabalho, janta-se. A maior parte das vezes, essa refeição efetua-se por volta das dez horas (antes dessa hora para os homens de uma bordada e depois dela para os da outra) processo que, se os quartos forem de quatro horas, indica um regresso ao trabalho de manhã pelas seis horas (baldeação). A bordo de navios muito grandes, a refeição dos oficiais é servida a ou tra hora e por vezes preparada por um mestre cozinheiro especial e até (no entanto, raramente), numa cozinha também especial. Nos navios de tamanho normal, toda a gente é servida ao mesmo tempo e, a bordo dos navios pequenos, a ementa é também frequentemente a mesma para todos, incluindo o capitão, que apenas beneficia dos melhores bocados . Mas, a bordo dos navios do rei e dos das grandes companhias, a disparidade é, pelo contrário, considerável. Falemos, em primeiro lugar, da ementa dos homens. Em Portugal e, em vários outros países, os homens recebem os gêneros crus e os «pratos» (7 ou 8 homens) devem encarregar-se de os cozer ou de os mandar cozer. Assim foi em França, em certas épocas assadas e - coisa curiosa! – encontrar-se-á mais tarde uma espécie de regresso a semelhante sistema no que diz respeito à carne: cada «prato». confiará ao cozinheiro a sua ração, metida num espeto marcado com sinais identificáveis,  ração essa que será mergulhada com as outras na caldeira fechada a cadeado e recuperada, após a cozedura, pelos seus proprietários. Concebido no intuito de evitar não apenas reclamações quanto à qualidade dos bocados como também algum favoritismo final não há carne, é tudo feijão seco - toda a caserna conhece este estribilha), tal sistema provocará violentas discussões, pois o cozinheiro, esse maldito ladrão de rações, é acusado de ter tirado um pedaço que poderá muito bem ter-se desagregado durante a cozedura. No século XVII, não existe tal problema: o cozinheiro coze tudo em duas enormes caldeiras de cobre 2. Por vezes dispõe de um forno (para o pão dos oficiais), mas, em geral, tudo se coze em água .. . a qual lhe pedem que economize (já vimos que, por esse motivo, terá de dessalgar o toucinho e o bacalhau em água do mar) . Embora considerem o gasto de legumes exagerado, estes constituem a base da alimentação. «Nas frotas bem orientadas - diz o padre Fournier - faz-se sopa duas vezes por dia (papas de sêmola de enteio ou de aveia e, por vezes, de milho); sopa de favas ou feijões, sendo estes últimos chamados favas pequenas) ou de grão-de-bico. O arroz aparecerá em caldos já nos fins do século. Tais sopas comportam gordura ou azeite (obrigatoriamente na marinha real ) a fim de se tornar mais nutritiva. Deve tratar-se de uma terrível mexerufada. O abade de Choisy, que, à mesa do capitão, a come, tal como os marinheiros, chama-lhe (argamassa) . A receita seguinte, um pouco mais tardia, deixa-nos pensativos. «Manda-se pôr um pouco mais de água do que é preciso para as favas ( ... ). Acrescenta-se-lhe farinha (nesta receita, trata-se de farinha de milho) à última hora, para corrigir o possível amargor das favas. Em cada caldeirão, mais duas gamelas de farinha de milho; ou à falta desta, um pouco de arroz. O arroz leva meia hora a inchar! Junta-se-Ihe azeite e, por vezes, pimentão de conserva na salmoura das barricas de carne de vaca salgada. A ração de grão ou de favas é bastante difícil de determinar, pois os números indicados ou abrangem toda a tripulação, desconhecendo-se, no entanto, os números que a compõem, ou dizem respeito a um período de tempo não determinado. Para a viagem ao Canadá, que exigia quatro meses de mar, atribuíam um alqueire (13 litros) a cada homem, O que dava pouco mais de 1 dI por dia. Tivemos já ocasião de ver que a ração de bolacha era mais precisa - pelo menos um arrátel - e virá a ser fixada por meio de regulamento e pouco mais ou menos dentro dessa mesma quantidade, nos fins do século. A verdadeira base da alimentação do marinheiro era, de fato, a bolacha. Três dias por semana (quatro na Inglaterra e em certos navios) a sopa era às duas refeições completada ou substituída por carne (toucinho ou carne de vaca salgada) ou por bacalhau.

Este último,. regado com vinagre em Saint-MaIo (certamente também com azeite) era considerado um autêntico acepipe preferível à carne. Reservavam-no de resto para os dias de jejum. Vemos atribuir, em Saint-Malo, para quatro meses e por cada homem, 50 bacalhaus e 40 arráteis de toucinho ou de carne de vaca. Noutras regiões, são 60 arráteis de toucinho para 4 meses, à razão de 6 refeições durante 17 semanas, ou seja: 68 refeições, o que perfaz um pouco menos de um arrátel a cada refeição. A carne de vaca e o bacalhau e o arenque são distribuídos numa proporção semelhante. Recomenda-se que haja «(mais toucinho que carne de vaca e mais gorduras que carne magra». A carne de vaca de boa qualidade vem da Inglaterra ou da Holanda (quando não há guerra), em barris e já salgada; o toucinho, da Normandia, da Bretanha e sobretudo de Baiona.
O peixe seco é preferível ao peixe «verde». Coisa curiosa: o óleo de noz, pouco apreciado, reserva-se para as lanternas; o azeite conserva-se bem e é do agrado de toda a gente.
Os números relativos às rações parecem consideráveis e talvez o padre Fournier tivesse razão ao afirmar que muitos dos que se queixam não têm em casa deles coisa que se assemelhe (frase que ainda em 1940 se ouvia pronunciar e era então incontestavelmente justa). A carne de vaca perde-se menos que o toucinho, pois a gordura deste fica no caldeirão. Esta gordura dá origem a um regulamento, uma vez que um costume antiquíssimo a considera propriedade do cozinheiro. É, em suma, o seu lucro, uma vez que a torna a vender aos marinheiros. Como o abuso fosse flagrante, deparamos frequentemente com a seguinte cota aliás mal distribuída: 1/3 para as sopas, 1/3 para o navio (para lubrificar mastros, cabrestantes, etc.) e 1/3 para o cozinheiro. Encontramos uma ordenança pela qual se preceitua o seguinte: (uma parte (?) para as sopas e a metade da que não for boa para conservação do navio e a outra metade para eles. Que destino lhe darão eles quando não é boa? Nos dias de jejum, a carne é substituída por queijo (o qual na Holanda, constitui a base da alimentação), por bacalhau (I para 4 homens) ou por arenque fumado (2 por cada homem). Ao domingo, quando possível, servem carne fresca à refeição da manhã. Como haveremos de ver quando chegarmos ao tema das distrações, os marinheiros, sempre que podem, dedicam-se à pesca ou caçam peixe grosso com o arpão. Essas pescarias melhoram consideravelmente o rancho» e parece que o cozinheiro não recalcitra ante o acréscimo de trabalho que daí resulta. Os homens fazem desaparecer, com o mesmo feroz apetite, atuns e douradas (excelentes); tartarugas (duras), lobos-do-mar (bem pouco agradáveis a não ser quanto ao lombo) e tubarões (duros e ácidos). É certo que devoram igualmente a bossa do boi de Madagascar, considerada intragável. e... ratazanas, que um certo Le Gallic declara superiores ao coelho; tal indivíduo “bate-se” igualmente com os enormes bichos ela bolacha, a qual cobre de manteiga (visto que também esta faz, em pequenas doses, parte da ração) cheia de ranço ou terrivelmente salgada. No fim de contas, talvez seja bom ... Há negros que são dessa opinião.
Tudo isto (ratos inclusive), mas sobretudo toucinho, carne de vaca salgada (sem pés nem cabeça), bacalhau e arenques provoca muita sede. Anda-se a arder por dentro e isto na zona tórrida) - diz o abade de Choisy. Todos os homens têm direito quer a cidra quer a vinho com água (meio por meio). Quanto ao vinho, a ração quotidiana será (ordenança de r683 relativo à viagem às ilhas da América de 3/4 de pinta ou seja: de cerca de 70 cI, o que perfaz 0,5 I bem abonado, mais do que recebem atualmente na Marinha Nacional (2 quartos).
Quanto à cidra, um «púcaro)) por dia; uma pipa (provavelmente de 400 litros ao que parece) para 4 meses (Canadá), ou seja: mais de 3 litros por dia, a menos que essa cidra se beba igualmente no Canadá, o que totalizaria 2 litros por dia; (um pouco menos) se beberem vinho ao domingo. Para os Bretões, não é certamente demais, mas que beberiam eles quando viajavam nas zonas tropicais?

A pipa de cidra encetada e aquecida conserva-se mal e pior ainda a cerveja de que os Flamengos tanto gostam: estas duas bebidas ocupam muito espaço e a cidra, que exige um pequeno orifício sempre aberto, escorre por toda a parte. Tal percalço pode provocar o encurtamento dos cruzeiros! Mas, o vinho, a dar-se uma revolta, é muito mais perigoso. Acontece também, além disso, as barricas esvaziarem-se - surpresa bem desagradável! Os navios «decentes) distribuem todos os dias) uma pequena dose de álcool (rum, aguardente de cidra ou bagaço); os menos generosos , distribuem-no aos domingos ou como recompensa.
Escusado será dizer que estas bebidas alcoólicas se encontram fechadas à chave. Já vimos como o pajem do prato levava a cesta da bolacha (Ia qual se assemelha a um chapéu de outros tempos) (já nessa altura, o chapéu tipo cesto de papéis!); o bidão de madeira com aduelas à cantina, sendo de barro ou de estanho, recebe o nome de frisão e destina-se aos oficiais e a gamela de madeira à cozinha também chamada lareira ou fogão). O quartel-mestre manda servir os homens do seu quarto sob a vigilância do chefe dos criados.
Para onde os levam? Para a bateria, sem dúvida, para a ponte quando o tempo estivesse bom. Mesa é coisa que não existe em parte alguma; os homens comem certamente acocorados ou sentados no chão. São vigiados pelo primeiro-tenente ou pelo segundo «a fim de evitar a grita ria e as discussões e manter o necessário respeito. Garfos é coisa que também não possuem; pegam na carne com as mãos; cortam-na com os dentes ou põem-na sobre a bolacha, servindo-se da preciosa navalha. O caldo ou «sopa grossa) come-se à colher, diretamente da gamela, a maior parte das vezes; de onde em onde, num prato de madeira; a colher, igualmente de madeira, é pertença individual. Nos portos vendem-se colheres de estanho, mas isso representa um luxo e esse precioso objeto logo seria roubado. Há quem, para a identificar, nela grave desenhos por vezes encantadores. Certos navios possuem, na parte interior do casco, painéis para as colheres, pequenos aparadores para as gamelas e ganchos para os canjirões.
Em Portugal, o marinheiro recebe, por mês, I arroba (30 arráteis ou seja 2/3 de arrátel por cada refeição, se se contarem os dias de jejum) de carne crua (salgada), que ele próprio deverá cozer, azeite, vinagre, sal, cebolas e peixe seco em quantidades proporcionais e pão (bolacha) à discrição, por dia, meia canadá (cerca de 70 d) de vinho e igual porção de água. O vinho pode ser vendido aos camaradas (hum! os mais abastados deviam andar frequentemente bêbedos.
Na Espanha, arrátel e meio de bolacha por dia, meio canjirão de vinho e um púcaro de água; 32 arráteis de carne salgada por mês, uma certa porção de peixe seco, cebolas, alhos ((e outras coisas que se distribuem por baixo preço» . Tal como em Portugal, cada um se encarrega de cozinhar os seus alimentos.Na Inglaterra, as refeições são quatro: e os homens recebem diariamente um galão de cerveja (4,5 litros? Parece exagero); 4 bolachas, um prato de ervilhas; para os quatro dias da semana sem Jejum, 2 arráteis de carne de vaca, meio arrátel de carne de porco e, nos dias de jejum, a cada refeição para 4 homens (os "pratos)) são constituídos por 4 marinheiros), meio bacalhau e meio arrátel de queijo para cada um. Note-se que fazem as suas orações antes do almoço, do jantar e da ceia e uma reza mais curta no fim de cada quarto.
Na Holanda, país importante para nós, visto os homens de Dunquerque possuírem os mesmos hábitos, as rações eram constituídas da seguinte forma : para 7 dias: 4,5 arráteis de bolacha e 3 quarteirões de manteiga. Para 6 meses, 5 queijos de 8 arráteis cada um. Por dia: uma garrafa de 2 pintas (r,861) de cerveja
Ao almoço  (levantar) favas. Ao meio dia, meio arrátel de carne de vaca ou de toucinho, 2 ou 3 vezes por semana; nos outros dias, bacalhau seco com um fio de vinagre e manteiga. À tarde, favas ou grão.