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A secessão de sete Estados norte-americanos do Sul que, em 9 de fevereiro de 1861, decidiram constituir nina federação independente, os Estados Confederados do Sul, deu início a uma guerra civil que durou quatro anos. A disparidade de forças entre os dois adversários era notória, e enquanto os Estados da União (nortistas) dispunham de 42 navios, os Confederados (sulistas) não tinham nenhum. A diferença iria ser rapidamente compensada, e uma das primeiras tentativas para alcançar esse objetivo consistiu em recuperar a fragata Merrimack, incendiada pêlos unionistas no porto de Norfolk, para ser transformada em encouraçado e rebatizado como Virgínia pêlos Estados Confederados.

Foi um golpe para a União, pois nenhum navio de madeira conseguia perfurar a couraça do Virgínia ou resistir aos seus grandes canhões. O Congresso reagiu disponibilizando fundos para a construção de alguns encouraçados. Gideon Wells, secretário da Marinha do presidente Abraham Lincoln, assinou três contratos: para o Galena, o New Ironsides e o Monitor, mas rapidamente se viu que só este último iria ser terminado a tempo para desafiar a unidade confederada. O Monitor, desenhado pelo sueco John Ericsson, combateu em 9 de março de 1862, em Hampton Roads contra o Virgínia com um resultado indefinido.

 No último dia desse ano afundou por causa de um temporal nas águas do cabo Hatteras, na Carolína do Norte, mas deu o nome a toda uma tipologia de navios construídos cm grande número pela União durante a guerra civil.
O Monitor tinha o casco baixo e de fundo plano — que guardava as máquinas, os camarotes e os paióis sobressaíam apenas 300 mm acima da água. Do centro do navio, um pouco mais para a proa, içava-se unia torre cilíndrica, de 6 m de diâmetro por 3 m de altura, que alojava os canhões Dahlgren, de alma lisa e carga pela boca, de 280 mm. Os costados de chapa de ferro de 12.7 mm eram recobertos por carvalho branco de 660 mm e o acabamento consistia cm cinco chapas laminadas de ferro de 25 mm de espessura.

Vista externa da torre artilhada de um monitor. Em primeiro plano um canhão Dahlgren

A coberta era formada por vaus pesados de carvalho revestidos com outros 180 mm de madeira com uma camada de chapas laminadas de ferro de 25 mm. As obras mortas eram maiores que as obras vivas e eram totalmente construídas com chapas de 25 mm. Assim, Ericsson conseguiu uma plataforma estável para a artilharia, reduzindo o balanço do navio, e foi repetindo a solução em sucessivos modelos de monitores.

A grande torre do Monitor (montada inicialmente num eixo central, com um sucesso pouco satisfatório, e cujo projeto foi logo modificado pelo inglês Cowper Coles) era fcila de oito camadas de chapas de 25 mm e uma suplementar em torno das portas da bateria. A parte superior ficou aberta até a instalação dos canhões, e depois foi coberta com uma rede feita com carris de ferro, deixando-se aberturas para facilitar a ventilação, A base era formada por vigas de ferro forjado, alinhadas no sentido das armaduras dos canhões. A estrutura girava sobre rodas de 76 mm, acionada por dois pequenos motores a vapor auxiliares, uma melhoria cm relação ao desenho de Cowper Coles, de acionamento manual, Ericsson tinha a intenção de armar a unidade com dois canhões Dahtgrcn de 380 mm que, por serem considerados pesados demais, foram substituídos por anuas mais ligeiras.

Vista lateral e vista esquemática de um típico monitor.

O Monitor foi concluído em menos de quatro meses, na Continental Ironworks de Thomas Rowland, em Green Point, Long Island, no East Rivcr diante de Manhattan. ürande parte do trabalho foi subcontratado: por exemplo, a torre foi construída nos Novelty Iron Works, do outro lado do rio, foi montada e posta para funcionar no mesmo local do navio, lançado à água em 30 de janeiro de 1862, iniciou os testes de navegação cm 19 de fevereiro, revelando vários defeitos. Em 6 de março saiu rebocado do vapor Sefh Low rumo a Hampton Roads, onde em 9 de março ocorreu a histórica batalha.

Corte transversal da estrutura da torre armada com canhão que era instalada no deck das embarcações.

Ainda antes do citado confronto, o governo de Washington havia destinado 10 milhões de dólares para a construção de outros navios semelhantes. O contrato para os dez primeiros (a classe Passaic, derivada do nome do primeiro que foi lançado à água) ficou estipulado em finais de 1862. Na prática, as novas unidades eram uma versão ampliada do Monitor. A maioria tinha um canhão Dahlgren de 380 mm, outro de 280 mm e máquinas um pouco mais eficazes, mas destacavam-se pela presença de uma grande chaminé e pe^o deslocamento da roda do leme de proa sobre a torre, o que fazia lembrar muito a do protótipo.

A nova classe obteve o seu primeiro êxito no último dia de fevereiro de 1863, quando no rio Ogeechee o Montauk destruiu o Ncisfivilfe, um navio confederado para a guerra ao tráfego mercante —, embora estivesse bem protegido pêlos canhões do forte McAIlister. Pouco tempo depois, o Weehawken, que em janeiro sobrevivera a um temporal no mar, e o Nahaní capturaram o navio encouraçado confederado Atlanta no estreito de Wassaw: bastaram três disparos dos canhões Dahigren do Weehciwken para decidir o confronto. Em contrapartida, nem todas as ações tiveram o mesmo êxito: durante o ataque a Charleston (Carotina do Sul), em abril de 1863, os monitores sofreram graves danos por causa do tiro concentrado das fortificações de costa. Das unidades da classe Passaic, o Weehawken afundou quando estava fundeado no porto de Charleston, em dezembro de 1863, devido à entrada de água por um portaló aberto quando o navio estava a carregando. O Païapsco explodiu ao se chocar com uma mina em Janeiro de 1865. Os outros foram vendidos entre 1899 e 1904.

Monitor de duas torres o Miantonomh, concluído muito tardiamente para poder lutar na guerra. Tornou-se famoso
ao visitar os paises europeus em 1866, despertando grande interesse.

No decorrer da guerra civil apareceram outras séries de monitores. A classe Canónicas, que entrou em serviço a partir de finais d&-1864, constava de unidades de 2.100 t de deslocamento que apresentavam melhorias significativas'em relação às da Passaic. Tinham ventilação, blindagem e armamento melhores com dois Dahigren de 380 mm em vez das anteriores peças missas. A classe era formada por dez monitores, muitos dos quais tiveram uma longa carreira. O primeiro, o Canonicus, serviu na Marinha norte-americana até 1908: o Tecumseh colidiu com uma mina na baía de Mobile e foi pêlos ares em agosto de 1864; o Caawha e o Oneoïa foram vendidos ao Peru, onde passaram a se chamar Atahualpa e Manco Capac e foram afundados durante a guerra contra o Chile (l879-1881).

Ericsson teve menos sucesso com os enormes Dk-tu-tor e Puriían, dois dos monitores de maior deslocamento da época: 4.509 t e 4.991 t, respectivamente. Esses barcos só tinham uma torre com dois Dahigren de 380 mm. Aquela montada no Dictator, cuja quilha foi assentada em agosto de 1862, entrando em serviço em novembro de 1864, tinha uma blindagem de tipo especial; continha um cilindro interior com quatro camadas de chapas de 25 mm, e outro exterior de seis camadas, com as interseções cheias de ferros retorcidos.

O Dictator maníeve-se inoperativo de 1870 a 1883, e acabou por ser vendido por apenas 40.250 dólares, quando tinha custado 1.393.566. O Puritun, lançado à água em julho de 1864, nunca foi concluído, sendo desmantelado em 1874.

Embora Ericsson fosse produtivo, não era o único projetista de monitores para a Marinha da União. John Lenthall e Benjamin Isherwood tiveram muito sucesso com a classe Miantonomoh, de 3.454 t (que tinha quatro canhões de alma lisa Dahigren de 380 mm, dois para cada uma das duas torres duplas), da qual se construíram quatro unidades, mas das quais só uma, o Monadnock, foi concluída a tempo para prestar serviço durante a guerra civil. No entanto, gaphou fama por causa de duas viagens oceânicas: em 1866, o Miantonomoh atravessou o Atlântico para visitam o Reino Unido e a Rússia, onde despertou um considerável interesse, enquanto em 1865-1866 o Monadnock saiu da costa oriental da América, passou pelo cabo Horn e chegou a San Francisco. Os navios da classe Miantonomoh eram parecidos com um monitor de duas torres, o Onondaga, construído por Georges Quindart e lançado à água em Julho de 1863, que, embora fosse um pouco maior que as unidades da classe Passaic, tinha dois canhões Dahigren de alma lisa de 380 mm e dois Parrot estriados de 150 libras; era considerado muito mais potente em poder das suas descargas.

Gravura de 1908 que mostra uma comparação entre o Monitor e o Merrimack.

Outra classe, a Kalamazoo, compreendia quatro monitores de 5,690 t, que mediam 105 m de comprimento, 17,3 m de boca e 5,3 m de calado. Se excetuar-mós o curioso híbrido monitor aríete Dimcïerberg, estes foram os maiores navios de guerra encomendados pela Marinha norte-americana durante a Guerra da Secessão. As quatro unidades {Shackamaxon, Passaconaway, Quinsigamond e Kalamazoo} começaram a ser construídas em 1863-1864; estavam armadas com quatro Dahigren de 380 mm em torres duplas e sua blindagem pesava 1.600 t (quase o dobro da do Monitor original), No entanto, nenhuma delas chegou a ser concluída, e em 1884 todas já tinham sido desmanteladas.

Contudo, o maior fui o Roanoke, uma fragata que estava em Hampton Roads e que rapidamente foi transformada. Foi desmantelada flutuando e contou com três torres (duas continham um Dahigren de 380 mm e um parrote de 150 libras, enquanto a outra tinha dois Dahigren: um de 380 mm e outro de 280 mm). A sua tripulação era de 350 homens e, como se tratava do único monitor da União com mais de duas turres, serviu como navio para a defesa dos portos desde 1863 até a final da guerra. Em 1882 foi retirado de serviço das listas da frota.