A evolução naval no século XVIII


Nos primeiros anos do século XVIII, os navios de guerra correspondentes às classes maiores, a primeira e a segunda, tinham alcançado as dimensões máximas permitidas pela tecnologia da época. Por exemplo, um navio de primeira classe tinha forçosamente de ter três conveses, pois, caso contrário, não seria possível instalar 90 ou mais canhões. Mas, com tal estrutura, a unidade tomava-se pouco manobrável, muito pesada, lenta nas manobras e pouco estável com mar agitado. Além disso, e embora tivesse muitos conveses, o navio precisava ser muito comprido para ter espaço para tantos canhões, o que aumentava os problemas técnicos para evitar que o casco se abalasse, ou seja, que ele mostrasse tendência para baixar a popa e a proa em relação ao centro, dada a menor flutuabilidade dos extremos.

Essa limitação de comprimento manteve-se durante todo o século XVIII, pois dependia da madeira como material de construção e da atrasada tecnologia da época. Por exemplo, o Commerce de Marseille,  um navio francês de 118

canhões construído em Toulon, em 1786, media 63 m de comprimento no convés de baterias, mas era muito difícil de dirigir, e é possível que tal característica negativa se devesse às suas dimensões: de fato, o Victory, o navio de Nelson em Trafalgar, construído 20 anos antes, era muito mais estável e só tinha um convés de baterias seis metros mais curta.

No entanto, durante os primeiros anos do século registraram-se grandes progressos no domínio da artilharia que ia a bordo.   A partir de 1715, o tubo dos canhões podia ser fundido em uma só peça, para depois ser furado e polido. Assim, seria possível voltar a usar os moldes e produzir facilmente as peças em série., Além disso, o emprego do carvão de coque na fundição melhorou consideravelmente a qualidade do material fundido, aumentando o desempenho do armamento em termos de alcance e poder de penetração. A possibilidade de manter o mesmo poder destrutivo com um menor número de bocas de fogo levou ao rápido desenvolvimento de uma nova classe de navios de dois conveses de 74 canhões, de menores dimensões que a anterior geração de primeira e segunda classes e, portanto, mais fáceis de manobrar, com melhores qualidades náuticas e capazes de usar toda a potência de fogo, inclusive com mar agitado e no momento decisivo da batalha. Logo os navios de dois conveses de 74 canhões se tomaram característicos da engenharia naval da época, ganhando a fama - durante muito tempo - de serem as melhores unidades de guerra construída até então.
Como no século XVIII, o projeto inovador teve origem na França, mas os ingleses apoderaram-se rapidamente da idéia e, depois de capturarem dois navios franceses desse tipo, desenvolveram o Invencible (em 1747) e o Courageux (em 1751).Em dez anos, os estaleiros ingleses construíram duas séries completas de unidades que seguiam o novo critério, a Dublin de 1.550 t e a Bellona de 1.615 t. Delas construíram-se 50 exemplares durante as décadas seguintes, a tal ponto que,embora fossem considerados de terceira classe,em 1794,na batalha conhecida  como "o glorioso primeiro de

junho", as linhas de combate estavam formadas na sua maior parte por navios de dois conveses de 74 canhões (17 entre os 26 britânicos e 17 entre os 25 franceses).Esse tipo de unidade apresentava vantagens notáveis: a redução a dois conveses de baterias permitia uma redução da altura do casco e um aumento da sua relação comprimento altura; em segundo lugar, as seções transversais do casco,na sua boca máxima,  adotaram um formato tipicamente  semicircular.

 Essas duas características tomavam o navio mais estável na função de plataforma para canhões. Além disso,semelhante ao que ocorria com o deslocamento, os navios tinham uma altura acima da linha de água maior e as portinholas dos canhões do convés inferior ficavam mais altas, o que permitia a utilização das peças mesmo com o mar agitado, o que lhes aumentava significativamente a potência de fogo. Assim, depois da inevitável oposição inicial de elementos conservadores, os navios de três conveses de 100 canhões caíram em desuso durante algumas décadas. Na França, entre 1749 e 1750, os navios de primeira e segunda classe, de acordo com a classificação que Colbert estabelecera 75 anos antes, quase desapareceram e apenas um navio de três conveses foi lançado à água, que em 1752 foi destruído por um incêndio e nunca foi substituído. Em 1751, lorde Anson, primeiro lorde do mar, aboliu os velhos Establishments ingleses (as normas de projeto que os navios britânicos tinham de seguir) e, pela primeira vez, introduziu formalmente um sistema de classificação análogo ao adotado pelos franceses. De fato, durante a nova era da expansão colonial, os dois países precisavam de navios robustos e com qualidades náuticas muito boas, capazes de realizar longas viagens oceânicas e, se fosse necessário, de travar e ganhar batalhas em mar aberto. E os antigos navios pesados, lentos e cheios de bocas de fogo foram gradualmente caindo em desuso.

As normas de projeto dos franceses previam navios armados com 64, 74 e 80 canhões dispostos em dois conveses. Mas os de 74 canhões representaram o compromisso ideal e mais flexível.Com peças de 32 libras, essas unidades dispunham de uma potência de fogo suficiente para enfrentar a maioria dos outros tipos e, bem comandadas, podiam travar combates com navios muito maiores, porém mais difíceis de manobrar.

 Ainda por cima, sua construção e sua manutenção eram muito mais econômicas que as dos navios de três conveses e precisavam de tripulação menor. Graças a seus méritos, os navios de dois conveses e 74 canhões difundiram-se amplamente por todas as frotas do mundo, primeiro nos países do norte da Europa, depois nos do Báltico, a seguir nos mediterrâneos (Veneza e Turquia estavam muito entusiasmadas com eles) e, por fim, nos Estados Unidos, quando se libertaram da Grã-Bretanha. Surpreendentemente, os franceses, que os tinham concebido, não adotaram totalmente os navios de 74 canhões e continuaram a preferir os de dois conveses mas com 80 canhões, enquanto os holandeses, limitados pela baixa profundidade de suas águas, desenvolveram um modelo de 64 canhões e construíram poucas unidades de 74 para servirem como navios-almirante.

O processo evolutivo influiu até nos navios menores: as unidades de quarta classe só ocasionalmente integravam as linhas de batalha, mas seu principal papel, tal como o dos de sexta classe, era o de reconhecimento, descoberta, bloqueio e destruição de mensagens. Para essas missões, a mudança mais importante desde meados do século XVIII foi o desenvolvimento das fragatas, navios rápidos de três mastros, todos eles com velas redondas.

No decorrer do século XVIII, também houve um ressurgimento do interesse por navios de três conveses. Pensava-se o seguinte: se a nova e mais potente artilharia era de fácil instalação num navio de dois conveses e 74 canhões, por que não se poderia conseguir um resultado semelhante, ou até melhor, num navio de três conveses e 100 canhões? Na realidade, as pressões políticas nesse sentido eram cada vez maiores mas, com o passar dos anos, tornou-se possível construir grandes navios de três conveses que fossem manobráveis em combate, graças à adoção de três modificações básicas. A primeira consistia em adotar as formas de carena derivadas da experiência com navios de 74 canhões e dos novos estudos sobre cascos mais estilizados, realizados por Chapman, o grande engenheiro naval sueco. A segunda modificação foi a introdução da roda de leme, em vez da tradicional cana do leme, a qual permitia um melhor controle da direção do navio: eram precisos menos homens para manejá-la e, além disso, podia ser instalada no convés de popa, o que permitia ao timoneiro ver o porte das velas e, conseqüentemente, manter o rumo. A terceira modificação, iniciada no século XVIII mas adotada amplamente no XVIII, dizia respeito ao velame e consistia na adoção de velas triangulares (gencas e velas de estai à proa e velas de estai entre os mastros) em conjunto com as velas redondas, e a substituição da tradicional vela latina por uma carangueja no mastro principal.

A direção e o controle dos navios com ventos desfavoráveis tornaram-se mais eficazes e rápidos graças aos notáveis progressos técnicos. Assim, verificou-se um retorno à construção de navios de três conveses de segunda classe e, com o correr do tempo, de primeira. Por exemplo, em 1780, os franceses lançaram à água quatro unidades de primeira classe e, seis anos depois, retomaram um ambicioso programa de construção naval, graças principalmente a Jacques-Noel Sane. Utilizando o seu projeto, entre 1786 e 1815 foram construídos dezesseis navios de 118 canhões e dois de 110. Ainda que em menor escala, os ingleses os imitaram; no entanto, em 1805, em Trafalgar, só estavam presentes três navios ingleses de três conveses e quatro franco-espanhóis.

Em 1801, os ingleses adequaram sua classificação à nova realidade: a primeira classe compreendia navios de 110 canhões; a segunda, de 90 a 100 canhões; e a terceira de 80 a 88. Desde essa data e até a chegada do vapor, os veleiros de guerra foram aumentando de dimensões. O processo evolutivo foi novamente favorecido pêlos avanços tecnológicos e por novos sistemas usados para armar os diversos componentes da estrutura: a utilização do ferro permitiu aumentar as dimensões dos cascos de madeira. Apesar de tudo, os navios de guerra dos últimos anos da época da vela só intervieram em ações isoladas, como na batalha de Navarrino de 1827, que foi o último exemplo de confronto entre frotas formadas apenas por veleiros.