História naval

ESCOLA DE SAGRES?


O historiador francês Marc Ferro, nas primeiras linhas de seu conhecido livro a respeito da história ensinada às crianças em diferentes partes do mundo, afirma que "a imagem que temos dos outros povos ou de nós mesmos é associada à história que nos foi contada quando éramos crianças". Ele argumenta que mesmo que a essas imagens outras venham se misturar ao longo do tempo, são as primeiras que permanecem, constituindo traços marcantes de nossas primeiras curiosidades, desejos e emoções.
 

Na construção dessas primeiras imagens sobre os mais diversos temas, é impossível ignorar o papel desempenhado pela tríade escola, livro didático e professor. Embora saibamos, por exemplo, que a mídia, por intermédio de filmes, novelas, séries e documentários, influencia a interpretação das pessoas sobre os conteúdos, a história ensinada nos tempos escolares continua a assumir grande destaque na formação da idéia de história que a maioria das pessoas adquire. E os livros didáticos têm sido as grandes referências para as narrativas que povoam o universo cultural dos indivíduos.


O assunto das viagens e navegações dos séculos XV e XVI não foge à regra. Ao lado de temas como egípcios, mitologia grega, cruzadas e guerras, os navegadores como Cristóvão Colombo e Vasco da Gama fascinam crianças e jovens em idade escolar. A curiosidade dos alunos está sempre voltada para temas como esses, que sugerem aventuras, desafios, invenções. Difícil contabilizar quantas vezes os professores são questionados a respeito de detalhes sobre como foi possível construir, sem as técnicas atuais, as pirâmides; se os deuses gregos realmente existiram; como eram as roupas e as armas dos cruzados e como eram as caravelas da era dos descobrimentos. Perguntas e mais perguntas são disparadas, geralmente pêlos alunos das séries iniciais. Triste imaginar que ao longo dos anos na escola essas mesmas crianças curiosas aos poucos deixam de formular questões sobre tais curiosidades e passam a ver as aulas de história como um momento chato, em que se estudam coisas velhas e mortas. Em algum momento, a curiosidade cede lugar ao desânimo. Será culpa da escola, do professor, dos livros didáticos ou do sistema educacional? Eis uma questão ainda a ser pensada com mais vagir pêlos profissionais da história e da educação.Se consultarmos os livros didáticos de história adorados em diferentes épocas nas escolas brasileiras, iremos encontrar uma série de imagens e representações, das navegações que formam o imaginário de gerações. Quando se toca no assunto em sala de aula, em conversa informal ou mesmo em programas de TV, aparecem sempre as mesmas referências: as caravelas, Portugal e a Escola de Sagres, os navegadores Cristóvão Colombo, Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, o descobrimento do Brasil referências essas que podemos facilmente encontrar nos livros didáticos de história. Além desses temas, aparece também uma série de perguntas: por que Portugal foi o pioneiro no processo das grandes navegações? Como eram as caravelas? A Escola de Sagres realmente existiu? Qual a nacionalidade de Cristóvão Colombo? Por que o novo continente descoberto se chama América e não Colômbia? Quem realmente descobriu o Brasil? Devemos falar ou não em descobrimento do Brasil?
 

Essas questões se fazem presentes tanto no universo dos livros didáticos quanto em outros lugares de produção e circulação de saber: TV, cinema e literatura. Quem pesquisa o tema das navegações provavelmente já deve ter perdido a conta de quantas vezes teve de responder a essas mesmas perguntas formuladas por crianças, alunos, jornalistas, curiosos e, até mesmo, amigos e familiares.   Vejamos o que os livros didáticos (não) nos ensinam sobre oO capítulo das grandes navegações e dos descobrimentos constitui geralmente nos livros didáticos o momento da "entrada" do Brasil no palco da história, ao menos aquela idealizada pelo pensamento eurocêntrico. As narrativas didáticas diversas vezes dão a entender que antes da chegada dos portugueses o lugar era um imenso "espaço vazio", ocupado por "selvagens", sem nenhuma noção de civilização, rotulados de povos "pré-históricos".
No continente americano, a definição de pré-história tem como referência tradicional o período anterior à chegada dos europeus ao continente, em fins do século XV. Os europeus banzaram sua presença na América de "história" e destinaram para todo o período anterior o termo "pré-história", ainda que atual mente se saiba que se usava a escrita no Novo Mundo já antes da vinda dos colonizadores tema das navegações.De maneira geral, os livros didáticos analisados apontaram algumas motivações para explicar as navegações dos séculos XV e XVI.

Houve autores que defenderam uma interpretação de caráter econômico, como a necessidade de expandir o comércio e de obter grandes quantidades de metais preciosos e especiarias. Outros ressaltaram uma confluência de outros estímulos: interesses de Estado, ambições pessoais, espírito de aventura e fervor religioso.
Ao explicar o pioneirismo de Portugal na empreitada das navegações no século XV, Joaquim Manuel de Macedo, professor do tradicional Colégio Pedro II e autor de Lições de história do Brasil, afirmava na segunda metade do século XIX (1860) que era destino daquele povo singrar o imenso mar oceano e conquistar novas terras. Para ele, a obra monumental das navegações portuguesas só foi possível graças ao determinismo de reis descobridores, como d. João I, mestre de Avís, e à ação de príncipes visionários, como o infante d. Henrique. Macedo via no pioneirismo português o sinal de que os monarcas eram figuras eleitas por Deus para dirigir o futuro dos povos.

A idéia de Portugal como um povo predestinado a conquistar o mundo por intermédio da arte de navegar foi retomada, já no período republicano, pelo livro História do Brasil (do curso superior), do professor e poeta Rocha Pombo. No capítulo dedicado aos descobrimentos, afirmou que, num contexto de transformação de mentalidades, Portugal seria uma espécie de caravela que conduziria a Europa povoada de lendas, medos e ignorância medievais para a era moderna com suas conquistas científicas e técnicas. Em narrativa entusiasmada e romântica, Rocha Pombo descreveu o pequeno reino ibérico como um importante centro de estudos da cartografia e das técnicas de navegar. Grandes cartógrafos, navegadores e geógrafos habitavam o Portugal do século XV descrito em seu livro didático. Os portugueses eram para o oceano Atlântico o que os fenícios e os gregos foram para o mar Mediterrâneo na Antiguidade. Rocha Pombo, assim como Capistrano de Abreu, acreditava que a localização geográfica do reino de Portugal determinou o impulso do seu povo para o mar oceano. Desde muito os livros didáticos são talvez a principal fonte das narrativas que povoam o imaginário cultural dos indivíduos cedo, segundo o autor, começaram os povos que habitavam o retângulo ocidental da península Ibérica a voltar suas atividades para o mar.

Talvez fosse mesmo necessário, enfatizava o seu texto, "afastar para a época remota da influência fenícia os primeiros ensaios que familiarizaram aquelas populações com a visão do oceano"Ao escrever nos anos 1940 sua História do Brasil para a primeira série ginasial, livro didático amplamente adorado durante o período militar pós-1964 no Brasil, o professor Joaquim Silva veio reafirmar algumas das representações criadas sobre o povo português como predestinado a navegar. Embora ressaltasse causas como a inovação técnica, o espírito de aventura e o fervor religioso nas grandes navegações, o autor apontou como fator determinante os interesses comerciais. Para ele, o comércio de especiarias com o Oriente era vital para a sobrevivência do continente europeu. Embora não perdesse a dimensão monumental das viagens dos descobrimentos, Joaquim Silva pôs na pauta das necessidades materiais (pimenta, cravo, canela entre outros) o movimento da história das navegações dos séculos XV e XVI. A queda de Constantinopla (1453) para os turcos significava, na sua leitura, a não manutenção de um mercado de suprimentos alimentares e medicinais.Para uma Europa faminta e doente, esses produtos representavam muito em lucro e sobrevivência. Ter o controle sobre o caminho para as índias era ter reinos e populações sob seu poder. A necessidade alimentar assumia,  no seu discurso didático, um lugar privilegiado no cenário da história. Tanto que, depois de enriquecer a república de Veneza, o comércio das especiarias com o Oriente foi encontrar seu porto seguro na cidade de Lisboa. Segundo o autor, Portugal nesse momento passava a ser a porta de entrada dos meios de sustentação do continente.


No contexto de abertura política e democratização do Brasil dos anos 1980, os irmãos Cláudio e Claudino Piletti, autores da coleção História & Vida, em análise fundada em aspectos econômicos, o pioneirismo português nas viagens pelo Atlântico era resultado da união do reino sob a autoridade do rei, apoiado pêlos ali supostamente produzido e ensinado significava a legitimidade da autoridade portuguesa sobre a arte de navegar.Nem os irmãos Piletti conseguiram resistir aos encantos místicos da lendária Escola de Sagres, de cuja existência não se tem comprovação. A semelhança de Rocha Pombo, eles reforçaram a importância da posição estratégica de Portugal no mapa europeu e das realizações de D. Henrique na Escola de Sagres na concretização do projeto de navegar. Notamos, com variações de estilo e destaques, que esses elementos constituíram tópicos centrais para os autores dos livros didáticos em diferentes contextos históricos criar a identidade de Portugal como um reino predestinado a dominar a arte de navegar. Somente aí estariam as explicações para a história das grandes navegações. Se recorrermos a livros didáticos mais recentes iremos encontrar a permanência desse modelo explicativo para o tema em questão. A guisa de ilustração,podemos mencionar o História — Série Novo ensino médio, de Divalte Garcia Figueira, publicado em 2004. Nesse livro, o autor preserva a tradição interpretativa das grandes navegações, ressaltando as motivações econômicas, o pioneirismo português por conta de sua posição geográfica e os estudos realizados na Escola de Sagres, mesmo após as diversas discussões sobre a sua não existência feitas com base em pesquisas e debates realizados durante as comemorações do V Centenário da Descoberta da América (1992) e do Brasil (2000). Ao enveredarmos pelo universo das imagens e da representação das navegações, percebemos a persistência no discurso didático da interpretação histórica apegada nos aspectos políticos, dando destaque para a ação dos reis e príncipes, e na transformação de navegadores como Vasco da Gama, Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral em figuras heróicas, místicas ou em homens à frente do seu tempo.

Não há uma reflexão sobre a história dos sujeitos comuns que participavam da empresa das navegações: artesãos, cartógrafos, navegadores, marinheiros, religiosos. A vida cotidiana das embarcações continua a ser representada nos livros didáticos de forma romântica e idealizada, legando ao silêncio outras histórias relacionadas às práticas sociais, tensões, violências c medos presentes no mar dos viajantes dos séculos XV e XVI. Mesmo os aspectos econômicos da empreitada ficam restritos apenas ao interesse de acúmulo de riquezas, e não são levados em consideração os significados das especiarias dentro da economia e dos hábitos alimentares da Europa. As imagens e representações construídas pela literatura das viagens não são apreciadas como possibilidades para os alunos aprenderem sobre as maneiras de pensar o mar, seus mistérios e lendas, o mar como objeto da história.
O grande desafio para os autores de livros didáticos e professores de história está em ir além de Portugal como lugar privilegiado geograficamente ou predestinado à arte de navegar. Talvez as possíveis respostas estejam na curiosidade infantil que pergunta, questiona e ousa, e não nas fórmulas prontas, receitadas de longa data por uma tradição inventada de escrita da história que se quer senhora das histórias submersas no mar das viagens e dos viajantes.

 CRÉDITOS

RENILSON ROSA RIBEIRO.

Doutorando em história pela Unicamp/SP e organizador de O negro em folhas brancas - ensaios sobre as imagens dos negros nos livros didáticos de História do Brasil últimas décadas do século XX)(IFCH/Unicamp. 2002).