A BATALHA DO YALU



Entre 1860 e 1865, o Japão passou por uma rápida transformação, de país feudal que vivia num isolamento auto-imposto para uma grande e florescente potência decidida a se expandir pela Ásia. O ponto alto dessa política expansionista foi a batalha de Yalu.
O pedido que o rei da Coréia fez ao Japão para enviar tropas para dominar uma revolta interna, deu ao Japão a oportunidade para atacar a China. A presença de forças militares chinesas em território coreano foi considerada pêlos japoneses como uma ameaça aos seus interesses políticos e comerciais na região. Consciente da sua superioridade militar, o Japão aproveitou a ocasião para tentar resolver a seu favor uma série de divergências sino-japonêsas.

Naquela época, nem japonesa nem chinesa tinham tecnologia para construir uma frota de guerra, por isso ambos tiveram de se voltar para a Europa para satisfazer suas necessidades (a China recorreu à Alemanha e à França, enquanto o Japão à França e à Inglaterra). A década de 1870 foi o momento de transição nos projetos de navios de guerra, uma vez que, após a batalha de Lissa, em 1866, os estrategistas se convenceram de que o esporão era uma arma decisiva para atacar de proa o inimigo, e que o,s canhões de grande calibre deviam estar dispostos de modo que pudessem disparar.

Na batalha de Yalu (pintura) os chineses perderam cinco unidades, mas o conflito demonstrou que era difícil, mesmo para os canhões mais pesados, afundar os modernos navios de guerra para a frente (tiro de "caça" ou perseguição) e para trás (tiro de proteção da retirada), enquanto o armamento secundário era montado nos costados do navio.A maioria das unidades encomendadas pelo Japão e pela China obedecia a essa disposição, e nenhuma delas era um verdadeiro navio de guerra, exceto os navios chineses Chen Yuan e Ting Yaun, de 7.792 t (de construção alemã e ambos lançados à água em Stettin, no Báltico, em 1882). Seu armamento principal era constituído por quatro canhões Krupp de 305/20 mm em torres duplas, duas à proa (uma em cada borda) e duas à popa, com a mesma disposição. Visto que essas unidades tinham sido desenhadas para combater em conjunto, uma tinha os canhões de estibordo mais à popa, enquanto na outra, os de bombordo estavam dispostos mais à proa.

Região onde se deu o confronto entre os dois países asiáticos.
 
Azuis chineses. vermelhos japoneses
A esquadra japonesas avança contra os chineses fazendo o célebre movimento de cortar o T.
 


Com exceção do Chen Yuan e Ting Yaun, em ambas as frotas os navios mais importantes eram cruzadores, semelhantes aos da classe Ligúria ou ao Giovanni Bausan, tanto em dimensões como em armamento e desempenho, ainda que as unidades japonesas fossem geralmente mais rápidas e as tripulações estivessem mais bem treinadas, estavam armadas com peças de tiro rápido (o projétil e a carga já vinham unidos, como hoje em dia se utiliza, em vez de ser necessário carregar a peça em separado).

Em 1894 a situação interna da Coréia voltou a ser instável, e tanto a China como o Japão enviaram navios para proteger seus interesses. Em 23 de julho daquele ano, nas águas de Asan, entraram em combate; em menos de uma hora (das 7h05 às 8 horas), os japoneses atingiram gravemente o cruzador Tsi Yuan, de 2.4001, e afundaram "as canhoneiras Kuang-Li e Kow-Shing, que transportavam 1.100 homens e que tinham sido "alugadas" pêlos chineses para a Inglaterra. Após algumas batalhas terrestres, em 1 de agosto, a China declarou oficialmente guerra ao Japão, e em 16 de setembro, o grosso da frota chinesa, sob o comando do almirante Ting, zarpou do seu ancoradouro de Tai-lien.

 

Cruzador japonês Yoshino

 Tinha ordens para não se dirigir para leste do estuário do rio Yalu, o que deixava ao Japão o controle do mar da Coréia. Os japoneses aproveitaram-se da situação e enquanto a frota se preparava e manobrava no mar Amarelo, desembarcaram na Coréia.

Os chineses reagiram enviando um corpo expedicionário de 5.000 homens para o rio Yalu. Assim que chegaram ao objetivo, foram escalados os transportes e as canhoneiras de apoio, enquanto o resto da frota ancorava a 12 milhas da boca do estuário.

Na manhã de 17 de setembro, o horizonte ficou cheio de uma fumaça preta que vinha do sul: eram os navios japoneses que queimavam carvão betuminoso Takashima, extraído nas suas ilhas. Ting mandou levantar ferro e manobrar para formação de combate: um V com as unidades mais fortes no vértice, e as mais fracas nas extremidades. Sua frota era composta por dois encouraçados, cinco cruzadores, três canhoneiras, dois torpedeiros, além dos cruzadores e canhoneiras que tinham escoltado as forças de desembarque.

Mas, os navios japoneses aproximavam-se em linha. À cabeça, uma flotilha rápida de quatro navios comandada pelo contra-almirante Tsuboi, o vencedor de Asan. Seguia-se a frota principal sob o comando do vice-almirante Ito, comandante-chefe, formada por seis navios, dos quais dois eram lentos e antigos. Além disso, os japoneses dispunham da canhoneira Akagi e do vapor armado Saikio Maru, que navegavam por bombordo da esquadra japonesa, perto dos últimos navios. Os navios-almirantes dos dois almirantes navegavam à cabeça das respectivas frotas.

Quanto à potência de fogo e ao número de unidades, ambas as frotas podiam ser consideradas equivalentes, mas em termos táticos e de desempenho, tanto no que diz respeito a homens como a material, os japoneses eram muito superiores. Os japoneses executaram a manobra do "corte em T", cortando a linha chinesa, enquanto a flotilha rápida se dirigia para os navios de bombordo da linha. As 12h50 os chineses começaram a disparar, mas os projéteis caíam no mar por causa da distância, 5.000 a 5.500 jardas (4.600 a 5.500 m), ser superior ao seu alcance. Entretanto, quando a flotilha rápida passava em frente ao centro da esquadra chinesa, a linha japonesa guinou a bombordo, evitando a tentativa chinesa de cortá-la, e, reunida a 3.000 jardas (2.700 m), abriu fogo. Mas os chineses aproximavam-se perigosamente do Fuso e do Hiyei, dois antiquados navios que estavam na cauda da frota japonesa; o primeiro acabou sendo gravemente danificado, enquanto o segundo quase foi esporado, e não teve alternativa senão atravessar a linha chinesa; mas a ação evasiva do Hiyei expôs o vapor armado Saikio Maru, que, por muita sorte, conseguiu continuar sem danos, e a canhoneira Akagi, que recebeu vários disparos.

Azul chineses,  Vermelho japonêses
1- Ao fugir ao combate o navio chinês Tsi Yuan esporeia um navio de sua própria formação.
2- Os dois encouraçados chineses viram-se para combater os japoneses.
3-A flotilha rápida japonesa afunda os cruzadores King  Yuan e Yuan.
4- O navio chinês Kuang Chi foge da batalha, encalha e depois é afundado pelos nipônicos.

 

Azul chineses, vermelhos japoneses
1- O navio-almirante Matsushima abandona, com graves danos, a esquadra japonesa. O comando é transferido para o Hashidate.
2-As unidades japonesas rondam os chineses Ting Yuan e Chen Yuan, atacando-os sem conseguir afundá-los.
3. 4- Outros navios chineses dirigem-se para a zona de combate, onde se intensifica a batalha, mas sem resultado positivo. As duas frotas se dispersam por volta das 17,30 hrs.

Uma vez rompida a formação chinesa, a flotilha rápida caiu para estibordo, avançando pela alheta de bombordo dos chineses, atacando as canhoneiras Yang Wei e Tchao Yung, que conseguiu incendiar. A seguir, fizeram uma manobra larga por bombordo, invertendo completamente o rumo. Voltaram a passar diante dos navios chineses, atirando no Ping Yuan que se aproximava vindo mais detrás. Mas a esquadra japonesa havia seguido a flotilha rápida até o flanco de estibordo da esquadra chinesa, e avançava por trás dos chineses; em outras palavras: um movimento de tenaz (as duas frotas japonesas avançavam para sul, navegando paralelamente, com os chineses no meio).

Durante esse movimento, quando estavam sendo cercados, os chineses concentraram-se inexplicavelmente em volta do pequeno Akagi, é só desistiram quando os canhões de 254 mm do Takachiho e do Naniwa afundaram o King Yuan, e o Chih Yuan. No meio da tarde, os japoneses tinham afundado dois cruzadores (King Yuan e o Chih Yuan), provocando incêndios em seis unidades, incluindo o navio-almirante Ting Yuan, e obrigando muitas outras a se retirarem da zona de combate. Como se isso não bastasse, o Tsi Yuan e o Kuang Chi haviam saído de combate sem oferecer forte resistência. O primeiro, depois de esporar e afundar outro navio chinês, o Tchao Yung, chegou a Port Arthur e seu comandante foi decapitado sumariamente. Quanto ao Kuang Chi, dirigiu-se para Wei-Hai-Wei, mas encalhou perto de Talien e, ao fim de cinco dias, (em 23) foi interceptado pelo Naniwa e o Akitsushima, que o afundaram.

Durante a batalha, os dois encouraçados chineses, o Ting Yuan e o Chen Yuan, foram atingidos por centenas de projéteis.

Mesmo assim, eles continuaram navegando e combatendo com quase todas as suas peças até que, mesmo em más condições, o Ting Yuan atingiu o cruzador japonês Matsushima com alguns projéteis de 305 mm, um dos quais lançou um canhão borda fora e acabou ferindo cerca de 40 marinheiros.Aproximadamente às 17h30, ao cair da noite, os navios chineses sobreviventes retomaram a formação de combate e se afastaram da zona do conflito. Os japoneses os seguiram num rumo paralelo até os perderem de vista. Na manhã seguinte, o Yang Wei foi encontrado encalhado e acabou afundado pelo cruzador Chiyoda, mas a verdadeira batalha já tinha acabado.

Tal como o "duelo" entre o Monitor e o Merrinwack em Hampton Roads mais de trinta anos antes, a batalha de Yalu ficou famosa por ter sido entre navios semelhantes, sem que eles tivessem um papel decisivo no resultado final da batalha.

Esse fato pode ser atribuído ao efeito combinado das blindagens de alta qualidade e às características das munições, muito antiquadas. Exemplo disso é que um dos projéteis chineses, que atingiu o Chiyoda acima do casco blindado, atravessou o navio sem causar danos muito comprometedores.

Os navios Naniwa, Itsukushima e Hashidate também foram atingidos por vários disparos de grande calibre que só lhes causaram danos menores, e a canhoneira Akagi, que tinha sido o alvo principal da frota chinesa, agüentou os disparos graças ao seu sólido esqueleto de aço. É mais do que provável que esses resultados revelem que, nos últimos anos do século XIX, os avanços no campo da blindagem acompanhavam os da potência das peças, o que é confirmado pelo fato de os navios japoneses mais rápidos, o Hiyei e o Fuso, terem sido canibalizados e desmantelados.

 

Cruzador japonês Chyoda

Em 8 de novembro, os japoneses ocuparam Port Arthur, aniquilando toda a guarnição, e em 2 de fevereiro de 1895 derrotaram a armada chinesa em Wei-Hai-Wei afundando o Ting Yuan. Em 16 de fevereiro de 1895 os chineses renderam-se. O resultado disso é que foram capturados 14 navios entre eles o encouraçado Chen Yuan e o aviso Ping Yuan.

Com o sucesso alcançado no mar, o Japão tomou consciência da importância de uma armada eficaz e com tripulações bem preparadas.